"Não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a se tornar conhecido". Lucas, 8:17,12:2 em Mateus10:26

"Corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene". Amós (570-550 a.c.)

"Ninguém pode ser perfeitamente livre até que todos o sejam".

Santo Agostinho

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Morte - Uma das principais realizações de Obama

Livro de soldado americano contradiz versão oficial da morte de Bin Laden
NOVA YORK - Um dos membros do esquadrão de elite Seal que participaram da operação para matar Osama bin Laden deu uma versão distinta da oficial divulgada pelo governo de Barack Obama para descrever o momento dos disparos contra o terrorista saudita no ano passado no Paquistão.
De acordo com o relato dele em livro que será lançado no dia 4, foi feito um disparo por um dos militares americanos contra a cabeça de Bin Laden no momento em que ele saía do quarto da casa onde estava escondido no Paquistão. A informação foi divulgada pela agência notícias Associated Press, que teve acesso ao livro No Easy Day (Não há dia fácil, na versão em português).
A obra, que será publicada pela Penguin Books, nos EUA, e pela Editora Paralela, no Brasil, foi escrita sob o pseudônimo de Mark Owen. Mas as autoridades já o identificaram como Matt Bissonnette, que deixou as Forças Armadas pouco depois da operação.
Oficialmente, o governo Obama afirmou que Bin Laden foi atingido apenas depois de voltar para o quarto e supostamente esboçar uma reação. John Brennan, chefe de contraterrorismo da Casa Branca, chegou até mesmo a dizer na época que teria havido uma troca de tiros.
Não houve nenhuma resposta até agora à divulgação do relato de Bissonnette. Apenas, em e-mail, um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional disse que o presidente sempre agradeceu "o profissionalismo, o patriotismo e a coragem" dos envolvidos na operação.
Além de contradizer a versão oficial, o Seal afirmou que nenhum de seus colegas nutria simpatia por Obama e temiam que o presidente usasse a ação politicamente. Um deles teria dito, em tom cético, que eles haviam "acabado de reeleger" o presidente.
A operação para matar Bin Laden é considerada por muitos como uma das principais realizações de Obama em seu mandato. Republicanos, porém, questionam a forma como o presidente usou o episódio, acrescentando que qualquer um que estivesse no cargo também teria dado a ordem para matar o saudita.
Há críticas ainda a Obama por ter contribuído com um filme que contará uma versão mais positiva para o presidente da operação. O livro de Bissonnette foi escrito de forma independente e ele pode ser processado por divulgação de segredos.
Antes de sua identidade ser divulgada, Bissonnette pretendia aparecer mascarado em entrevistas para as TVs americanas. No livro, ele não conta quem teria sido o autor dos tiros que mataram Bin Laden.
Ameaças
Vários sites de grupos ligados à Al-Qaeda juraram de morte Bissonnette pela publicação do livro. Após a publicação em uma emissora norte-americana, sua fotografia se espalhou por sites jihadistas de todo o mundo ao lado de promessas de vingança pela morte do líder Bin Laden.
Pronunciamento
Na ocasião da morte de Bin Laden, o presidente Barack Obama afirmou que, desde 11 de setembro de 2001, os EUA estavam em busca de justiça e em guerra com a Al-Qaeda "para proteger nossos cidadãos, nossos amigos e nossos aliados". "Logo após assumir o cargo, eu orientei Leon Panetta, o diretor da CIA, a tornar a morte ou captura de Bin Laden a principal prioridade em nossa guerra contra a Al-Qaeda", enfatizou.
Em seu pronunciamento, Obama citou um tiroteio entre tropas americanas e Bin Laden antes da morte do líder da Al-Qaeda. "Hoje, sob a minha direção, os Estados Unidos lançaram uma operação direcionada contra aquele complexo em Abbottabad, Paquistão. Uma pequena equipe de americanos realizou a operação com coragem e capacidade extraordinárias. Nenhum americano foi ferido. Eles tomaram o cuidado de evitar mortes de civis. Após um tiroteio, mataram Osama Bin Laden e tomaram custódia de seu corpo."

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,livro-de-soldado-americano-contradiz-versao-oficial-da-morte-de-bin-laden,923297,0.htm

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Corrupção no Brasil: a quantas andam

Everardo Maciel, pernambucano de 65 anos, conhece como poucos brasileiros os dutos por onde transita o dinheiro no Brasil. Ele foi secretário da Receita Federal por oito anos –nos dois governos Fernando Henrique Cardoso. Por outros oito anos ele foi Secretário da Fazenda; no Distrito Federal e em Pernambuco. Postos absolutamente privilegiados para se saber, por exemplo, quais são, na prática, as raízes, os métodos, formas e motivos que impulsionam a corrupção.
Nesta conversa, Everardo esmiúça algumas das principais veredas do assunto que há meses, senão há anos, rola de boca em boca Brasil afora. Com clareza, o ex-secretário da Receita, o homem do leão, revela toda a dimensão do problema no Brasil:
- O Brasil tem hoje R$ 1 trilhão em impostos não pagos, sonegados… O nome disso é corrupção.
Isso, por parte dos cidadãos. Já o Estado também não deixa por menos:
- O Estado deve aos cidadãos (em precatórios) uns 10% disso, uns R$ 80 a R$ 100 bilhões… Qual é o respaldo moral que tem o Estado? Isso é o que se chama torpeza bilateral…
Entre outros problemas, o ex-secretário descreve as formas como, via orçamento e suas emendas, e numa trança com o Executivo, tece-se a teia da chantagem e da corrupção no Congresso.
A seguir, a íntegra da conversa.
Terra Magazine: Você, por oito anos, foi secretário da Receita Federal no governo de Fernando Henrique Cardoso. Também foi secretário da Fazenda em Pernambuco e no Distrito Federal…
Everardo Maciel: Exatamente…
Com oito anos na Fazenda em dois estados e mais oito anos na Receita, você é um dos raros brasileiros que realmente conhece os caminhos que o dinheiro percorre no Brasil, que tem o "pulso" de por onde anda, de qual é o dinheiro "limpo" ou o "sujo", e como isso se produz e reproduz. São 16 anos não apenas vivendo, atuando, mas compreendendo e aprendendo os caminhos do dinheiro, seja o que vai bem ou o dinheiro que vai mal. Comecemos por aí. Quais são as principais molas da corrupção no Brasil?
É uma combinação de razões. Não tem uma razão única. Você pode imaginar que uma das razões está associada precisamente à impunidade. A impunidade decorre de várias razões. Às vezes, à negligência ou incapacidade dos órgãos de fiscalização, outra vezes à morosidade do Judiciário decorrente de processos arcaicos…
Excesso de recursos na reta final…
Abusividade nos recursos e de mais a mais a Justiça frequentemente não conseguir compreender, absorver as novas tecnologias, o que permitiria dar celeridade aos processos. Só muito recentemente apareceu o processo digital. Mas os processos dos julgamentos são processos barrocos, com excessivas citações, repetições, vaidade imperando nos colegiados, e tudo isso faz com que as coisas demorem. Isso pra pegar do ponto de vista mais genérico. Por outro lado, também o Executivo, de modo geral, quando enfrenta, por exemplo, a evasão fiscal.
"Evasão fiscal": para um leigo, o que vem a ser?
Evasão fiscal significa dizer o não recolhimento de impostos. Por inadimplência, pura e simples, ou por sonegação. Quer dizer sonegação, não pagamento de impostos…
Porque não tem dinheiro pra pagar ou porque não quer pagar…
Isso, não quer pagar por inúmeras razões, quer dizer… é onde há um espírito doloso, fraudulento. Ou seja, ele quer ficar rico sem pagar impostos. Frequentemente tomando para si aquele imposto que foi pago pelo consumidor final, empossado de um processo de enriquecimento ilícito. Bom, o estado também às vezes é muito negligente, como eu dizia, o processo de evasão fiscal é lento, complicado, a execução fiscal é pior.
Falando nisso, cheguemos à chamada "dívida ativa", que vem a ser a soma dos impostos não pagos, sonegados, em bom português. Qual é a soma de impostos devidos e não cobrados no Brasil? Qual é, mais ou menos, esse número hoje?
Hoje, ultrapassa um trilhão de reais.
Um trilhão de reais?
Isso. Mas, na verdade, essa é apenas a dívida inscrita, ou seja, a dívida líquida e certa. A dívida real é muito mais do que isso. E na Europa, segundo informações dos órgãos do setor, para você ter ideia, essa sonegação chega hoje a dois trilhões de euros… É por isso que o mundo está como está.
De impostos indevidos e não pagos? Quais as razões mais elementares pra isso no Brasil? Algumas pelo menos.
Como eu dizia, alguns porque não quiseram ou não puderam fazer o pagamento. Muito frequentemente, a razão mais provável é sonegação, quer dizer omissão de receita, utilização de despesas indevidas, notas frias…
O nome disso é corrupção!
É evidente! O nome disso é corrupção.
Isso é a cultura da corrupção. Muito mais ampla do que se imagina… Isso é indiscriminado, de cima a baixo, país afora? Não tem lugares com mais ou menos.
Não. Eu costumo dizer primeiro que a sonegação, e portanto essa variedade da corrupção, é oportunista. Oportunista no sentido de quê? Dadas as condições para que ela ocorra, ela ocorre. E pior ainda, ela não tem preferência por classes sociais nem regiões. Ou seja, essa forma de corrupção tem preferência por tipos morais, não necessariamente com relação a classes sociais ou econômicas.
Aprofunde, por favor…
Eu quero dizer o seguinte: pessoas ricas fazem isso, mas pobres também fazem, e pessoas de classe média também fazem
Em alguma região específica do país?
Não, não, é inespecífico.
É um corte transversal…
Isso é um traço que vem de uma regra mais geral. É que tributo, como se diz, é norma de rejeição social. Ninguém quer pagar tributo, a cidadania que leva a pagar o tributo é uma cidadania que geralmente é muito vulnerável. E num país onde você tem um déficit de cultura democrática, um déficit de cidadania, então tem um espaço formidável para essas coisas.
Você diz então que há que se ver com distanciamento brechtniano o discurso… de que isso é algo localizado em um nicho A ou um nicho B. Há que se enxergar isso como de verdade é, sem disfarces ou ilusões…
Isso é tão antigo quanto o país. Ou seja, ele sempre existiu, não se trata evidentemente de uma novidade. Há momentos que ele se torna mais expressivo, há momentos que ele se torna menos expressivo e uma infinidade de razões que vão desde a pujança econômica até a pobreza. Evidente que em situações de pobreza não há o que sonegar. E, por outro lado, quando acontecem movimentos políticos ao longo da história em diversas situações, em diversas circunstâncias, como já aconteceram. É evidente que não se trata portando de um fenômeno recente. Isso é inerente à cultura do país. No caso específico, um fenômeno tributário. Por via de consequência, evasão, sonegação, é fenômeno cultural, é fenômeno histórico.
Ou seja, o momento em que de fato o Brasil quiser encarar esse fantasma da corrupção tem que olhar primeiro no espelho. E parar de apenas acusar o vizinho e identificar exatamente onde estão os problemas…
Aí sim nós passaremos a verificar como o fenômeno realmente é. Nós estamos dedicando uma certa atenção a um aspecto particular dessa questão e a outros tantos, não. Quer dizer, que coisas conseguem criar um caldo de cultura favorável à corrupção? Eu acho que existe uma coisa essencial, o brasileiro é muito dependente do Estado. É nisso que se firma esse o jogo e a nossa cultura patrimonial…
…Raimundo Faoro e "Os Donos do Poder", um profundo estudo sobre o patrimonialismo oligárquico…
…exatamente o que eu ia mencionar. Então isso é assim que funciona. No Estado, quando pensamos no Estado…
É pensando em como que eu vou me dar bem…
Como eu tomo posse do Estado. Aí eu começo a olhar pra sistemas políticos eleitorais, e como tomar posse do Estado quando as vias mais conhecidas estabelecem uma sinistra simbiose com isso, precisamente o processo orçamentário…
E aí vamos cair na questão das emendas ao orçamento que cada deputado e cada senador tem direito a apresentar…
Sem a menor sombra de dúvidas. Um dos primeiros escândalos de grande porte do Brasil nessa área deu na chamada "CPI dos anões do orçamento". A CPI dos anões do orçamento foi uma CPI, ou os fatos a elas associados, que teimam em não acabar. O problema continua do mesmo tamanho. A lei chegou a ficar pior do que era na época.
Por quê?
O processo orçamentário está em franca decomposição. As nossas regras orçamentárias foram regras constituídas em 1964, já no fim do Governo de João Goulart. Estamos falando aí de março de 1964 que era um sistema razoavelmente íntegro, consistente. E de lá pra cá foi um processo de deterioração. E na constituição de 1988 previmos em seu Artigo 163, Inciso 1, uma lei que tratasse, uma lei complementar que tratasse de finanças públicas… e é onde nós estamos, portanto, desde aquela época. Vai fazer 24 anos. Nós estamos em um processo de mora legislativa. Nós não temos a lei. Aí nós chegamos a uma situação tão esdrúxula quanto essa.
Qual seja?
Os investimentos financiados com restos a pagar, com o orçamento do passado, hoje equivalem aos investimentos realizados com orçamento corrente. Quer dizer, isto se alguém pensasse em algo tão absurdo, tão complexo, tão esdrúxulo, não conseguia fazer melhor! Bom, aí nesse processo aparece a questão do orçamento associado à eleição. É evidente que financiamento em campanha eleitoral tá na base da corrupção brasileira. É evidente! Então por que uma pessoa, digamos pra ser generoso…
Isso é indiscriminado, de cima a baixo, em todos os lugares? 
É nacional! Nacional, isso não tem escapatória. Antes se falava assim: acontece mais nas regiões mais pobres…
O nordeste e norte pagavam essa conta, levavam a fama sozinhos…
Isso! Hoje posso dizer o seguinte: este fenômeno não conhece fronteiras, ele está disseminado, difundido por todo o país. E aí, porque uma pessoa, pra usar uma expressão mais generosa, porque uma pessoa pouco virtuosa…
Um ladrão…
… em potencial, porque ele quer ter mandato? Não todos, digo um virtuoso. Pode ser por várias razões, e uma delas pode ser para obter essa coisa esdrúxula que é o foro privilegiado. Foro privilegiado que pretendendo proteger as autoridades das ações supostamente pouco cuidadosas do juiz de primeira instância, faz uma coisa fantástica. Faz com que as pessoas não se sujeitem mais à dupla instância que era o outro princípio constitucional. Ou seja, em verdade, em certa circunstância, o privilégio é pena. Bom, mas as pessoas ainda presumem… Eu prefiro ser julgado pelo Supremo do que ser julgado por um juiz de primeira instância. Isso, primeiro, é uma afronta à Justiça como um todo como se estabelecesse uma casta de juízes onde os juízes de primeira instância são irresponsáveis. O que isso é evidentemente afrontoso. O segundo motivo de um mandato é para tratar das emendas. Hoje cada deputado, cada senador, cada parlamentar tem direito a um montante pra gastar, cuja unidade é milhões.
E o problema nem está tanto, ou somente, nos milhões… está no que seria isso como mola nesse processo, nessa cultura de ataque ao tesouro…
Sem dúvida nenhuma! Alguns erram ao dizer que o volume é pequeno em relação aos gastos. O processo é deletério! Então vem daí o seguinte: uma pessoa que tem interesse, um empresário, que tem interesse de prestar um serviço ao governo e ganhar dinheiro com isso, ele financia a campanha do candidato para que ele chegue no Congresso e…
…arranque aquela verba da empresa X lá em Cocoribó da Serra para ganhar aquela obra, aí ela pega um pedaço, dá pro deputado e tal e vamos em frente…
Portanto você fez um saprofitismo.
…um…?
Saprofitismo, ou seja, juntar o que não presta de um com o que não presta de outro.
Isso sem escolher região…
Isso é nacional. O problema está no instituto, não nas pessoas. Como eu costumo dizer, o problema não é a fila… o problema é o guichê. É o guichê que tá aberto. Se o guichê abrir, faz fila.
Essas seriam molas que impulsionam?
Depois vem o seguinte; mas essa peça, ela é tão sofisticada que dá origem a outra coisa. Ela passa a ser um instrumento de barganha para negócios políticos dentro do Congresso. O "eu só voto se você me der a emenda".
Ou seja, todo mundo faz de conta que não conhece, mas na verdade aí está o ou um grande gargalo da corrupção…
Todos! Todos sabem perfeitamente como se faz isso. Então, ao fazer este tipo de coisa você criou um elemento fértil para a corrupção. Aí vira pra todo mundo. Essa fragmentação tem a ver com outra tese, que é da fragmentação partidária. Aí se diz que a coisa só anda no Congresso, só prospera se houver a famosa liberação das emendas. É impressionante e eu fico chocado, como isso não é dado como sendo um ato de corrupção explícita.
E chantagem.
Chantagem e corrupção.
Todos os presidentes da República têm sido chantageados –e aceitam jogar esse jogo- pelos Congressos com essa história: ou você libera as emendas ou eu não voto nos seus projetos.
Como isso vai crescendo cada vez mais, vai degradando a representação popular e aumentando o grau de chantagem. Então nós temos um processo que é iníquo e cumulativo. Ele aumenta cada vez mais, ele não fica limitado, vai aumentando cada vez mais, vai sendo utilizado com intensidade. Já no outro lado, a nossa pretensão de assegurar a expressão política a quaisquer pessoas que se organizem em partidos permite que existam inúmeros partidos que vão receber dinheiro do fundo partidário, sim senhor, que depois tem tempo de televisão para negociar o tempo de televisão… será que não se enxerga que isso é uma coisa…
…que isso é a corrupção da grossa. Estamos falando de duas coisas na nossa conversa. Primeiro é como, dentro do Congresso e nessa trança com o Executivo, tece-se o método e a forma como se constroi a corrupção e, de outro, como por omissão do estado e ação dos cidadãos, um país permite que exista  uma dívida de R$ 1 trilhão em impostos sonegados. Dívida que, se não me engano, é igual a quantidade de impostos cobrados, ou mais um menos, não é isso?
Um pouco menos…
Um pouco menos…e que é também, por sua vez, corrupção, um estimulador da cultura da corrupção…
Ou seja, você tem aí várias faces da corrupção, onde pra enfrentar precisa fazer… aquilo que às vezes falavam comigo, sempre falavam, quando pediam e eu espero não estar caindo no mesmo erro…
E o que seria isso?
Quando me pediam uma coisa inviável, impossível, inexequível, diziam que eu não fazia por falta de "vontade política". Como se eu fosse capaz de virar o mundo de cabeça pra baixo! Eu não tô querendo cair no mesmo erro, não! Mas é falta de vontade política. Nós vivemos uma espécie de cinismo nacional. Tudo isso é uma grande hipocrisia nacional.
Com as arquibancadas se acusando mutuamente, inclusive via mídia, de que "ciclano é ladrão", "beltrano é que é ladrão". E aí, além dos fatos que são gravíssimos, hordas de recalcados e recalcadas, frustrados, ressentidos em geral, expelindo seus problemas, suas infelicidades, como se não fossem, muitas vezes, partícipes do problema.
Exatamente. É que falta, o problema é esse: a defesa do que é moral, a defesa do que é correto não empolga de verdade… E pior…
O que empolga é acusar o outro. O corrupto é sempre o outro.
É, exatamente. E pior ainda se alguém propõe mudanças que vão enfrentar as raízes da corrupção, lá no nascedouro. Isso passa a ser vista como uma coisa tão técnica que as pessoas sequer percebem do que se trata. Falta, portanto, a disposição de empolgar uma mudança… e eu não tô defendendo nenhum moralismo não, tô defendendo um processo civilizatório.
Você tá defendendo o uso da inteligência e da massa crítica.
Sim! Um processo civilizatório. Não almejo uma utopia construindo o mundo, não, mas ter um lugar onde você seja capaz de prever os fatos como devem acontecer, você ser capaz de respeitar os outros e de fazer que a riqueza decorra do trabalho e da inteligência e não da corrupção. São valores mínimos de uma sociedade.
Tendo trabalhado, inclusive, como consultor do FMI em outros países, uma pergunta: o brasileiro é mais ou menos corrupto do que a média do mundo? Ou é uma questão de método?
Não, eu diria que não se pode fazer, não conheço um ranking de povos em relação à corrupção.
Seriam sempre os homens e suas circunstâncias.
Isso, povos mais amadurecidos têm culturas mais sedimentadas, então esses valores são mais cultivados e respeitados. Por exemplo, o Helmut Kohl, o homem que fez a unificação da Alemanha, encerrou a carreira por conta de uma não declaração de um tipo de financiamento de campanha. Na cultura japonesa as pessoas se suicidam porque aquilo ataca a honra dele. Aí nós estamos falando de valor.
Hoje, segundo certos valores nossos, feio é ser pobre!
Isso! Nós temos uma crise de valores. Essa é a crise mais séria. Um trabalho de reconstrução disso é um trabalho quase geracional. É um trabalho que tem que começar na casa, no trabalho na família na escola, em todos os lugares. Ou seja, é preciso que exista eu sentimento de indignação com esses fatos. Ainda que a indignação em só em si não valha…
Pra não cair na farsa de que é só coisa de A, B ou C e não perceber o que verdadeiramente é.
A indignação precisa de consequências. A indignação tem que ser como se usa modernamente, tem que ser afirmativa. Ela não tem que ser simplesmente uma negação, uma repulsa dos fatos, ou um sugerir repulsa apenas como ato de representação social. Tem que dizer, estou indignado e quero fazer, agir desta forma.
Como isso do trilhão de reais em impostos sonegados é muito importante, te pergunto: essa dívida ativa de um trilhão é cobrável, localizável, ou a cultura que levou a isso a torna etérea?
É muito difícil cobrar, porque boa parte dessas pessoas ou já não mais existe ou não são encontráveis, ou as empresas já não mais existem. Quer dizer, uma dívida que se demora cobrar, ela se torna incobrável, esse processo de distanciamento da cobrança da dívida e sua geração faz com que se torne muito difícil cobrar alguma coisa. Agora também, por outro lado, falamos da dívida ativa, mas o estado também deve ao cidadão…
Precatórios…
Precatórios, agora por exemplo, qual é o sentido moral…
Qual o tamanho da dívida dos precatórios?
O precatório tem um valor de 10% disso, do trilhão, vi informações que vão a 80, 100 bilhões… Então 10 % disso, não mais do que isso.
Quer dizer, os cidadãos devem cerca de R$ 1 trilhão ao estado que, por sua vez, deve aos cidadãos cerca de 100 bilhões de dívidas que não são pagas…
Isso, exatamente. Uns R$ 100 bilhões. E porque não fazer um clearing?
Um acerto, um encontro de contas?
Qual é o respaldo moral que tem o Estado…
Pra cobrar se não paga?
Pra cobrar se não paga! E não age na dupla mão. É preciso que aja uma integração, como dizia o constitucionalista alemão Klauss Tipke, a moral do contribuinte e do Estado. É dupla mão! É preciso você investir-se de uma condição moral, para exigir uma conduta moral. Quando o Estado claudica, quando o estado não faz, o que deveria fazer, ele começa a autorizar, mesmo sem pretender, a agirem da mesma forma.
E aí vira moto-contínuo…
Aí sim. Isso é o que se chama torpeza bilateral
Bem, Everardo, essas são, grosso modo falando, raízes visíveis e perceptíveis de alguém que tem 16 anos de profunda experiência de viver e ver os dutos e veios por onde circula o dinheiro no Brasil. Falamos aqui de valores e o que produz a falta deles.
A falta deles produz a corrupção.
Corrupção… bem, um país que tem um trilhão de dívida em impostos, de sonegação, já tem o que dizer sobre isso. Já tem como começar a conversar consigo mesmo!
É, já é um bom começo de conversa!

domingo, 19 de agosto de 2012

Inventor de Collor agora se orgulha de processo

Inventor de Collor agora se orgulha de processo

NO LIVRO NOTÍCIAS DO PLANALTO, QUE NARRA MÉTODOS DA IMPRENSA NA ERA COLLOR, AUGUSTO NUNES É APONTADO COMO UM DOS CRIADORES DO MITO DO CAÇADOR DE MARAJÁS. MAIS: A OBRA REVELA AINDA QUE ELE RECEBIA LAGOSTAS E GRAVATAS HERMÈS DE PRESENTE DO ENTÃO GOVERNADOR ALAGOANO. HOJE, O SENADOR PROCESSA O JORNALISTA DA ABRIL, QUE DIZ QUE AÇÕES JUDICIAIS SÃO MEDALHAS
15 de Agosto de 2012
247 – Nada como o tempo para esgarçar uma relação e uma velha amizade. Em 1987, quando o Brasil se preparava para a primeira eleição presidencial após a democratização, o jornalista Augusto Nunes chefiava a redação do Jornal do Brasil, então o mais influente do País, em São Paulo. Naquele ano, o então governador alagoano Fernando Collor sonhava com a presidência da República e sua estratégia de lançamento, na mídia, foi ancorada em três pilares: uma capa de Veja, sobre o “caçador de marajás”, um Globo Repórter, sobre o mesmo tema, e uma boa entrevista no antigo JB, que formava opinião.
A entrevista ao JB foi concedida a dois experientes jornalistas: Augusto Nunes e Ricardo Setti. A abertura, relatada no livro “Notícias do Planalto”, de Mario Sergio Conti, ex-diretor de Veja, foi feita da seguinte forma, sob o título “Furacão Collor”:
“Como impetuoso lutador faixa-preta de karatê que é, ele investe com golpes fulminantes e certeiros contra vários adversários ao mesmo tempo. Só a devassa que determinou contra os inacreditáveis marajás do funcionalismo público local já seria suficiente para catapultá-lo ao primeiro plano da política nacional, como de fato aconteceu. Mas isso é pouco para o mais jovem governador de Estado do Brasil. Imprimindo velocidade de furacão a uma gestão que mal chegou a três semanas, ele mandou reabrir os primeiros e empoeirados inquéritos sobres os 800 assassinatos impunes cometidos pelo ´sindicato do crime´, partiu para o saneamento das falidas finanças do Estado, desafia o poder dos usineiros do açúcar que dominam 70% da economia alagoana e, de quebra, tem pronto para detonar um plano de reforma agrária que pode servir de modelo para o país”.
Collor já foi, portanto, um super-herói aos olhos de Augusto Nunes. Mais do que isso, foi um amigo, que, segundo relata Mario Sergio Conti, enviava periodicamente lagostins alagoanos e gravatas de seda Hermès ao jornalista.
Hoje, no entanto, são inimigos. O senador alagoano trata a revista Veja como um “coito de bandidos” e tem sido um dos principais defensores da convocação de Policarpo Júnior.
Em razão disso, tem sido atacado com frequência pelos jornalistas da casa – entre eles, Augusto Nunes, que agora é alvo de um processo judicial e escreveu sobre o tema na noite de ontem. Segundo Augusto Nunes, dependendo de ontem partem, processos são medalhas para serem colocadas no peito de jornalistas – assim como as gravatas.
Leia, abaixo, a coluna de Augusto Nunes:
Para jornalistas sérios, ações judiciais movidas por casos de polícia são medalhas. A gradação é determinada pelo prontuário de quem, em vez de dar trabalho a oficiais de Justiça e magistrados, deveria estar recolhido a uma cela. Processos patrocinados por um João Paulo Cunha, por exemplo, não vão além de medalhas de bronze. Ganhei uma. Duelos no tribunal com Orestes Quércia garantiam medalhas de prata. Ganhei duas. Um Fernando Collor vale medalha de ouro. Ganhei quatro.
Vem aí a quinta, informa a ação de indenização ajuizada na semana passada pelo ex-presidente escorraçado pelo Brasil decente do cargo que desonrou. Desta vez, Collor quer ser compensado em dinheiro pelo desgosto que lhe causaram três textos publicados nesta coluna nos dias 13, 19 e 27 de março deste ano. Comparada a posts que descrevem mais detalhadamente a figura abominável, a trinca que ampara a ação judicial é quase gentil. Pelo jeito, qualquer pretexto está de bom tamanho para o falso caçador de marajás agora fantasiado de caçador de jornalistas.
Com o título A multidão que devora verbas na casa do espanto e o espantoso verão de Collor, o primeiro texto trata da bolada consumida pelo senador do PTB alagoano em janeiro, quando o Congresso estava em recesso. Onde a repórter Júlia Rodrigues enxergou um desperdício criminoso do que é extorquido dos pagadores de impostos o perdulário compulsivo enxergou uma trama destinada a denegrir-lhe a imagem. Como se houvesse imagem a denegrir.
O segundo post se apoia nos mais recentes desvios de verbas públicas protagonizados pelo reincidente incurável para sublinhar a constatação resumida no título: Collor confirma: O Brasil mudou para pior. Ao ajuizar a ação, o ex-presidente jurou que jamais malbaratou ou embolsou o que não lhe pertence. O terceiro texto ─ O rebanho da seita que acoberta bandidos de estimação quer furar a fila do tribunal ─ apenas inclui o líder da bancada do cangaço na relação de pecadores aparentemente condenados à perpétua impunidade.
Caprichando na pose de ofendido, Collor argumenta que foi “inocentado pelo Supremo Tribunal Federal e absolvido pelo povo brasileiro”. Inocentado pelo STF coisa nenhuma. A maioria dos ministros absolveu “por falta de provas” o ex-presidente de um país cuja Justiça, pelo andar da carruagem, daqui a pouco só vai condenar ladrões que gravem em vídeo o ato criminoso e confessem o que fizeram ─ ao vivo ─ no Jornal Nacional.
Absolvido pelo povo brasileiro coisa nenhuma. Uma parte do eleitorado alagoano garantiu-lhe a cadeira no Senado. Candidato a governador em 2010, foi surrado nas urnas já no primeiro turno. Virou amigo de infância de Lula, bajula Dilma Rousseff, faz qualquer negócio para conseguir espaço na vitrine em que já foi a atração principal. Mas nunca mais será presidente. Essa certeza angustiante vai atormentá-lo até a morte.
Em qualquer país menos primitivo, Fernando Collor estaria na cadeia há muito tempo. Num Brasil castigado pela corrupção impune, não só continua em liberdade como insulta o procurador-geral da República, calunia jornalistas honestos e coleciona ações judiciais que acabam adornando com mais uma medalha de ouro o currículo de quem vê as coisas como as coisas são.
Ele exige uma reparação em dinheiro. Eu exijo que ele devolva pelo menos a “verba indenizatória” que torrou em janeiro. Os leitores vão decidir quem tem razão.

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/75360/Inventor-de-Collor-agora-se-orgulha-de-processo.htm

Não é hora

DELFIM NETTO
A ideia escolar que os salários são proporcionais à produtividade marginal do trabalho é absolutamente falsa. A prova é visível. Brasília é, sem sombra de dúvida, onde é menor a produtividade do trabalho, mas ostenta os maiores salários do país!
Vemos armar-se um aparente tsunami reivindicatório de aumentos salariais. O apelo à greve é um direito do funcionalismo, mas é preciso haver responsabilidade e saber que há custos para eles, porque ela pune, basicamente, os direitos da população a quem deve servir.
Talvez seja interessante lembrar que, nos anos 80 do século passado, o Dasp (Departamento de Administração do Serviço Público) fazia pesquisas sobre níveis salariais do setor privado para tentar equiparar a eles os do setor público, ajustados pelo valor atual da vantagem da aposentadoria integral.
Nas funções mais claramente identificáveis e que exigiam mão de obra mais qualificada, os salários eram ligeiramente melhores do que os do setor privado. Talvez seja por isso que não existiam 10 milhões de candidatos preparando-se nos "cursinhos" de admissão do serviço público como hoje.
Em 1984 (quando o Brasil voltou a crescer 5,4% e já tinha superavit em conta-corrente), a situação salarial do funcionalismo estava equilibrada. A destruição do Dasp começou em 1986 e acabou gloriosamente em 1990. Desde então, cada grupo que se "ajeita", dispara uma corrida para a "equiparação" ou "isonomia" dos que se consideram "atrasados".
Essa balbúrdia facilitou a confusão, dando a impressão equivocada de que o caos precede a ordem. Mas, como ensina o velho ditado, "é nessa confusão que morre o Tesouro Nacional"...
Não é fácil avaliar a qualidade, a razoabilidade e a justiça em cada reivindicação dos improváveis 250 mil que se dizem estar em greve causando enormes inconvenientes para a sociedade. Mas, se o número for verdadeiro, ele é uma amostra representativa (40%) de todo o funcionalismo civil federal na ativa, que é de 640 mil.
Com base nela, a razoabilidade das exigências parece ser muito precária. O rendimento real do setor público total entre janeiro de 2005 e março de 2012 (7,25 anos) cresceu nada menos do que 4,8% ao ano, contra 2,1% no setor privado.
O número total de funcionários na ativa cresceu à taxa de 2,2% ao ano. A "renda real" apropriada pelo funcionalismo federal (marajás e bagrinhos) aumentou no período 7,0% ao ano, enquanto o PIB cresceu a 3,8% ao ano.
Num momento de dificuldades como o atual, eles têm todo o direito de reivindicar, mas o governo tem o dever de resistir em nome da estabilidade que beneficia os "excluídos" 196 milhões de cidadãos brasileiros!

sábado, 18 de agosto de 2012

Questionamento do acordo de Itaipu é tiro no coração do Mercosul

É o que afirma o reportagem de Fábio Cervone, colunista do site R7.  Veja a seguir.

A recente atitude do Paraguai, que pretende rever os acordos em torno da usina de Itaipu, representa um golpe certeiro no motor e no coração do Mercosul (Mercado Comum do Sul). O rio da Prata (que engloba os rios Paraná, Paraguai e Uruguai), onde se localiza uma das usinas hidrelétricas mais produtivas do mundo, faz parte há 200 anos dos acordos de paz e de desenvolvimento dos países do cone sul.

O mundo em que vivemos hoje segue uma das leis mais primitivas do homem: a luta por recursos naturais, como água, luz, alimentos, minérios e outras matérias-primas. É essa força que comanda as decisões das diferentes nações, principalmente pelo fato de o planeta Terra ser limitado. Por isso, ao projetar uma integração regional, como ocorre na América do Sul por meio do Mercosul, a geografia se torna a base do relacionamento entre os Estados.

O Mercosul, além do objetivo imediato de criar um mercado comum, com livre circulação de bens e mão de obra, tem como ponto fundamental os acordos envolvendo a partilha da bacia do rio da Prata (veja o mapa) e de seus afluentes. Não à toa, os quatro países fundadores do bloco (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) são banhados por essa bacia.

Uruguai e Paraguai: dois opostos no Mercosul

A bacia do Prata sempre foi um problema espinhoso, que inclusive provocou pelo menos duas guerras de razoáveis proporções (guerra da Cisplatina e a guerra do Paraguai).

Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai — este especialmente interessado nos rios, já que não possui saída para o oceano — foram obrigados a se entender em relação à região para evitar constantes e destrutivas inimizades, como ocorrido nos períodos de guerra. Este acordo inicialmente permitiu a utilização compartilhada do rio, possibilitando a conexão do Paraguai ao Atlântico e aos territórios dos demais países ali localizados, fosse pelo transporte hídrico, pela irrigação, pela força aplicada em rodas d'água (ou outros mecanismos rudimentares de aproveitamento energético) e a pesca.

Mais tarde, com o desenvolvimento da energia elétrica e das hidroelétricas, as bacias que dividem os quatro países do cone sul se tornaram ainda mais importantes. O potencial energético foi rapidamente compreendido, os interesses cresceram, e a região ascendeu em termos estratégicos, concretizando sua importância geopolítica. Em 1969, sob a liderança brasileira foi assinado o tratado da Bacia do Prata, que visava promover maior integração econômica e de infraestrutura entre os países da região.

Neste sentido, durante a ditadura militar brasileira e o longo governo do general paraguaio Alfred Stroessner (1954 a 1989), as duas nações concretizaram o acordo, assinado em 1973, para construir na época a maior hidroelétrica do mundo e, até os dias atuais, umas das maiores realizações da engenharia moderna, a usina de Itaipu.

A instalação da hidroelétrica foi feita no lado brasileiro da fronteira, mas a enorme intervenção causada no Paraguai e a ligação geográfica entre as duas margens do rio Paraná forçaram os dois países a ratificar um acordo de cooperação. O investimento da empreitada foi organizado pelo governo brasileiro, mas a energia produzida pela usina é divida igualmente entre os dois parceiros.
O acordo entre brasileiros e paraguaios incomodou profundamente os vizinhos argentinos, então comandados por Juan Domingo Perón e María Estala Martinez de Perón, até 1976.

Os argentinos não só partilhavam a soberania da bacia do Prata como eram ameaçados diretamente por uma possível destruição de sua capital, Buenos Aires, por enxurrada, caso Brasil ou Paraguai abrissem de uma só vez as comportas da gigantesca represa criada para o funcionamento de Itaipu.

Finalmente, em 1979, durante o regime militar argentino, foi assinado o acordo tripartite (Três partes: Argentina, Brasil e Paraguai), que dava as garantias legais aos argentinos, assegurando um cenário que não ameaçasse a segurança nem os interesses do vizinho. O tratado incluía a construção de outra usina hidroelétrica, desta vez envolvendo apenas a Argentina e o Paraguai. A usina de Yacyetá foi finalizada apenas em 2011 e está localizada 400 km abaixo de Itaipu, na fronteira entre os dois países.

Esta construção funciona não apenas como geradora de energia, mas também como anteparo para um imprevisto que cause a liberação excessiva das reservas de água de Itaipu na região, evitando um desastre.

Mesmo não envolvido diretamente na construção das usinas de Itaipu e Yacyetá, o Uruguai, como banda oriental do rio da Prata, fez parte do processo de integração como observador ou mesmo como membro ativo dos acordos.

Estes fatos formaram os primeiros aparatos jurídicos que obrigaram a coexistência pacífica e, assim, a inevitável integração entre estes países da América do Sul.

A partir do momento que Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai concretizaram a parceria na bacia do Prata, o processo de integração se tornou praticamente irreversível. Isso significa que esses países inseriram em seus projetos individuais de nação a coexistência com os demais vizinhos, a divisão de recursos naturais e a necessidade de trocar informações.

O comprometimento de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai com a integração regional gira em torno da bacia do rio da Prata, uma característica geográfica destes vizinhos, e, por isso, crivada nos DNA dos respectivos Estados. Como em outras regiões do mundo, estes países possuem entre si laços carnais que os conectam, já que suas riquezas se originam e correm para a mesma fonte.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um novo milagre econômico brasileiro?

Reproduzo verdadeiro e belo artigo. Que seja uma inspiração para dias melhores.
Voltei faz pouco tempo de um mês de viagem pela Europa. Uma Europa em crise, dizem os jornais. Vi os restaurantes lotados e as lojas cheias, e não somente com turistas brasileiros. A impressão global é que a crise é ainda muito relativa, e que a retomada econômica fica na esquina.
Espantei-me também quando passei pelas lojas e pelos supermercados. O nível de preços é mais ou menos duas a três vezes menor do que aqui no Brasil, quer seja por carne, restaurantes e vestiário.
Andei de carro pela França e pela Itália. As estradas são verdadeiros tapetes, apesar de ser locais onde os invernos rigorosos passam por vários ciclos de gelo/desgelo, uma verdadeira máquina natural para quebrar revestimentos.
Enquanto aqui, em Pernambuco, onde as temperaturas anuais oscilam entre 25º C e 30º C, estamos dirigindo entre numerosos buracos. A conclusão é clara: as empreiteiras, no Brasil, usam materiais de qualidade inferior, para baixar os custos. E provavelmente entregando os contratos com um preço maior das obras da Europa.
Vamos acompanhar essa trilha do dinheiro: voltei ao Brasil em tempo para assistir a um espetáculo fantástico: o julgamento do Mensalão. Vi todos os advogados dos acusados demonstrando que os clientes são perseguidos sem razão, indignados que pessoas tão honestas possam ser processadas.
Provavelmente veremos depois os próprios réus aparecerem diante das câmeras de televisão, junto com as esposas e os filhos, chorando publicamente diante de tamanha injustiça. Eu estou sonhando, um sonho talvez infantil: fico com a esperança que um deles, finalmente vai demostrar dignidade, responsabilidade e maturidade e se levantar para dizer "Sim, sou culpado, pagarei pelos meus erros e peço desculpas à sociedade brasileira". Continuo sonhando até agora...
Essas considerações político-econômicas me levam a acreditar que sim, estamos vivendo uma boa fase de desenvolvimento econômico, porém é ainda um milagre. Crescimento sem uma classe política com honestidade e valores é como uma casa sem fundações: pode erguê-la, mas a primeira tempestade a derrubará.
E os Brasileiros merecem melhores políticos, pois hoje são melhores que esses políticos. Basta assistir aos Jogos Olímpicos onde um dos nossos atletas ganhou o ouro nas argolas, enquanto treinou com muito menos apoio que seus grandes rivais internacionais. Ou, quando as jogadoras de volley ball conseguiram anular seis match points contra as favoritas Russas.
Em ambos os casos, não é milagre: é talento, dedicação e muito, muito trabalho. Esse é o Brasil que vai transformar o milagre em realidade.
Jean-Jacques Gaudiot é consultor internacional e sócio da EZreport

domingo, 12 de agosto de 2012

DATAFALHA JULGA O MENSALÃO

A própria reportagem do jornal paulista que dá conta dessa nebulosa sondagem carrega os elementos para se concluir que está sendo distorcida sob as razões supracitadas.
Edu Guimarães

Não é preciso ser muito inteligente para perceber que é uma fraude a pesquisa Datafolha, divulgada neste domingo, que afirma que 82% dos brasileiros querem que o STF condene os réus do mensalão. Uma fraude com fins político-eleitorais.

Essa pesquisa, vale dizer, sugere um nível de consciência política da sociedade que não deve existir nem na Suíça.

A farsa estatística do instituto de pesquisas da Folha de São Paulo é um ataque político  que pretende pressionar o STF a condenar indistintamente os réus do julgamento e influenciar o processo eleitoral deste ano.

A própria reportagem do jornal paulista que dá conta dessa nebulosa sondagem carrega os elementos para se concluir que está sendo distorcida sob as razões supracitadas.

A manchete principal de primeira página da Folha é a de que “Maioria quer condenação, mas não crê em prisões”. A matéria, porém, mostra que essa maioria apenas respondeu de forma genérica a uma questão sobre corrupção.

Diz a matéria que 82% ligam o mensalão a corrupção, o que até uma criança de dez anos pode concluir no âmbito de um noticiário infatigável no sentido de colocar o assunto em pauta.

A pesquisa usa o senso comum e a desinformação da sociedade sobre o caso para construir uma tese política com objetivos escancaradamente político-eleitorais. Quem responderia que não quer a condenação de corruptos?

Aliás, a própria pesquisa mostra que o brasileiro está desinformado sobre o caso. Segundo o relato do jornal, 81% dos entrevistados dizem ter tomado conhecimento do mensalão, mas só 18% se consideram bem-informados.

Ora, como é possível que quem se considera mal-informado sobre um assunto já tenha opinião formada sobre ele? Como é possível que 82% tenham dito que houve compra de votos no Congresso se só 18% se dizem bem informados sobre o caso?

Se, como diz a matéria, 46% dos entrevistados pelo Datafolha julgam que a cobertura do mensalão pela imprensa é parcial e só 39% julgam imparcial, esse dado desmonta a tese de que a maioria já se decidiu pela tese jornalística sobre o mensalão.

A pergunta do Datafolha sobre a influência do caso nas eleições mostra objetivo político-eleitoral. E a ausência de transparência na divulgação dessa pesquisa ao não reproduzir o questionário submetido aos entrevistados, sugere manipulação.

Faz-se necessário, portanto, que os partidos políticos afetados pela divulgação nebulosa dessa pesquisa representem à Procuradoria Geral Eleitoral exigindo a divulgação imediata do questionário submetido aos entrevistados e a auditória da sondagem.

Aliás, nem é preciso que partidos políticos passem recibo e invoquem a Justiça Eleitoral. Qualquer cidadão pode fazer isso.

Nas eleição de 2010, por exemplo, a ONG Movimento dos Sem Mídia conseguiu abrir investigação de pesquisas na Polícia Federal. O Datafolha, inclusive, está sendo investigado. Não custará nada, portanto, fazer nova denúncia à PGE.

JANIO DE FREITAS: Cadê as provas contra Dirceu?


Numerosas contestações pareceram muito mais convincentes do que as respectivas acusações

Os advogados que até agora atuaram no julgamento do mensalão não merecem menos aplauso e defesa do que têm recebido, com fartura, o procurador-geral e acusador Roberto Gurgel. Não bastando que sua tarefa seja mais árdua, os defensores são alvos, digamos, de uma má vontade bem refletida na imprensa, por se contraporem à animosidade da opinião pública contra os seus clientes.

Ainda que não assegurem, necessariamente, a inocência de tal ou qual acusado, numerosas contestações pareceram muito mais convincentes, em pontos importantes, do que as respectivas acusações.

Na maioria desses casos, a defesa se mostrou mais apoiada do que a acusação em testemunhos e depoimentos tomados pelo inquérito, assim como em documentos e fatos provados ou comprováveis.

Com isso, outros pontos importantes da acusação estão ainda mais em aberto. É o caso, crucial, do mensalão como múltiplos pagamentos para assegurar votos ao governo na Câmara ou como dinheiro para gastos de campanha eleitoral.

A acusação não comprova a correspondência entre as quantias entregues a deputados e os votos na Câmara. Nem, sobretudo, a relação entre os pagamentos com valores tão diferentes e os votos que teriam o mesmo peso na contagem.

Não fica resolvida também, na acusação, a afirmada finalidade de compra de votos na Câmara e o dinheiro dado, por exemplo, aos leais deputados petistas Professor Luizinho e João Paulo Cunha, entre outros bem comportados aliados do governo também agraciados.

E houve, ainda, dinheiro destinado a seções partidárias estaduais, que nada tinham a ver com votações de interesse federal.

A afirmação de compra de votos, sustentada pelo procurador-geral Roberto Gurgel, foi tomada à CPI dos Correios por seu antecessor, Antonio Fernando de Souza, para formular a denúncia ao Supremo Tribunal Federal, há cinco anos.

A afirmação prevaleceu na CPI, porém, por conveniência política da oposição, e não porque os fatos apurados a comprovassem. Acertos de campanha eram muito mais coerentes com o constatado pela CPI. E já figuravam nas acusações de Roberto Jefferson, quando admitiu também haver recebido do PT, para o PTB e para candidatos petebistas.

Outro exemplo de afirmação fundamental e em aberto, porque construída de palavras e não de comprovações, está na acusação agora apresentada por Roberto Gurgel ao STF: “Foi José Dirceu quem idealizou o sistema ilícito de formação da base parlamentar de apoio ao governo mediante pagamento de vantagens indevidas” -e segue.

Seriam indispensáveis a indicação de como o procurador-geral soube da autoria e a comprovação de que José Dirceu “idealizou” o “sistema ilícito”. Não só por se tratar de acusação com gravidade extrema.

Ocorre que o “sistema ilícito” foi aplicado já em 1998 por Marcos Valério, com suas agências de publicidade, e pelo Banco Rural para a frustrada reeleição de Eduardo Azeredo ao governo de Minas. Foi o chamado “mensalão do PSDB”, descrito pela repórter Daniela Pinheiro, como já indicado aqui, na revista “piauí” deste mês.

Logo, para dar fundamento às palavras do procurador-geral Roberto Gurgel, só admitindo-se que José Dirceu “idealizou” tudo uns cinco anos antes do mensalão do PT. E, melhor ainda, que “idealizou” o “sistema ilícito” para beneficiar o PSDB de Eduardo Azeredo, hoje senador ainda peessedebista.

Os votos dos ministros do Supremo não suscitam expectativa só por carregarem consigo a absolvição e a condenação, mas pela maneira como encarem as divergências perturbadoras entre acusação e defesas.

http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2012/08/12/janio-de-freitas-cade-as-provas-contra-dirceu/

sábado, 11 de agosto de 2012

Veja adota tática do avestruz no caso Policarpo

247 – Na próxima terça-feira, o deputado Doutor Rosinha (PT-PR) apresentará o pedido para convocação do jornalista Policarpo Júnior, chefe da revista Veja em Brasília, pela CPI da Operação Monte Carlo. Durante anos, o bicheiro Carlos Cachoeira, useiro e vezeiro de grampos clandestinos e ilegais, foi a principal fonte de Policarpo. O argumento pela convocação de Policarpo foi reforçado pela capa da revista Carta Capital deste fim de semana, que traz um grampo em que Policarpo pede a Cachoeira que levante algumas ligações de um deputado: o goiano Jovair Arantes, do PTB. O bicheiro promete resolver o assunto com o araponga Idalberto Matias, o Dadá, especializado em arapongagem clandestina.
 Veja adota tática do avestruz no caso Policarpo
Há, no entanto, um pacto de silêncio na imprensa brasileira. Nenhum veículo que integra a chamada “grande mídia” – ou o chamado “Partido da Imprensa Golpista”, como alegam seus críticos – repercute notícias da revista Carta Capital. 
A revista finge que não é com ela. Falou uma vez, no início da crise, citando um trecho parcial de um grampo, em que Cachoeira dizia que “Policarpo nunca vai ser nosso”, e na semana retrasada, quando Andressa Mendonça, esposa do bicheiro, chantageou um juiz, ameaçando soltar, pelas mãos de Policarpo, um dossiê negativo contra ele, em Veja.
 A Editora Abril, comandada pelo executivo Fábio Barbosa, antes um porta-voz da transparência corporativa, cada vez mais adota a estratégia do avestruz, enfiando a cabeça debaixo da terra.  Isto é acontece ao se calar com relação ao grampo da Polícia Federal em que Policarpo pede a Cachoeira que levante algumas ligações de um deputado: o goiano Jovair Arantes, do PTB.
É caso gravíssimo.  Será que a Justiça se manifestará?
Ver mais em: http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/74747/Veja-adota-t%C3%A1tica-do-avestruz-no-caso-Policarpo.htm

A escolinha do Gurgel

NO JULGAMENTO EXIBIDO EM CADEIA NACIONAL HÁ DE TUDO: ROLANDO LERO, SAMBARILOVE, BERTOLDO BRECHA E MUITOS OUTROS PERSONAGENS HILÁRIOS
A figura lembra Jô Soares, mas a inspiração veio do mestre Chico Anysio. Roberto Gurgel – ou Gurjô, como preferem alguns – produziu material didático para crianças. O chefe do Ministério Público Federal quer o mensalão em salas de aula e elaborou uma cartilha, disponibilizada no site “Turminha do MPF”, que indignou o PT. Os antigos comunistas, que no passado eram acusados de devorar criancinhas, hoje acusam o procurador-geral de promover lavagem cerebral contra o partido.
Personagem do dia no julgamento do mensalão: o procurador Roberto Gurgel Lia de Paula/Agência Senado/Divulgação
Gurgel, que se coloca como porta-voz da ética e da honestidade na cartilha, demonstrou interesse pessoal na causa e, por isso, já é alvo de uma representação no Conselho Nacional do Ministério Público, proposta pelo deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP). De todo modo, não deixa de ser interessante estimular o estudo da Ação Penal 470 em salas de aula. O que, além de pedagógico, é também divertido.
Nas sessões do Supremo Tribunal Federal, a disputa pelo papel de Rolando Lero foi acirrada. Terá sido o criminalista Alberto Zacharias Toron, que defende o ex-deputado João Paulo Cunha? “Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Comi-o”, disse Toron, citando Oswald de Andrade. Ou terá sido Marcio Thomaz Bastos, a quem o “amado mestre” se encaixaria perfeitamente antes de cada uma de suas falas?
Sambarilove, no julgamento, há um só. É Roberto Jefferson, malandro à moda antiga, que ora diz uma coisa, ora diz outra. Ora o mensalão existiu como mesada parlamentar, ora como “figura retórica” e construção mental. Ora o chefe era José Dirceu e, agora, sua defesa aponta as baterias contra o ex-presidente Lula.
Zé Dirceu, aliás, quem será? Joselino Barbacena, aquele que se escondia do professor? “Larga d´eu sô!”. E os advogados do Rural, que se revezam no papel de Maria Jacinto Pena? Aquela que sempre lembrava, em tom choroso: “Ele morreu”. Sim, todas as responsabilidades no Rural recaem sobre o ex-presidente José Augusto Dumont, morto em 2004, num acidente de carro.
A nota de cada um dos alunos não caberá ao professor Gurjô, mas aos 11 ministros do Supremo que também desempenham papéis curiosos. O presidente Ayres Britto é um beletrista, que lembra o Ptolomeu. Ricardo Lewandowski, que deve passar horas lendo seu voto de relator, poderá dizer: “Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa”. Só terá que tomar cuidado para que Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes não voltem a dormir no fundo da sala, como já fizeram nos primeiros dias do “mensonão”, assim batizado por José Simão.
Com um julgamento político exibido em cadeia nacional de rádio e televisão, o Brasil também aprende que um processo tem dois lados – acusação e defesa – e que não deve se submeter a pressões externas. Com a palavra final, Bertoldo Brecha: “A ignorança é que astravanca o progréssio e zé-fi-ni”.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Gilmar Mendes está encurralado. Ele vai mentir!

Carta reafirma e reforça ataque a Gilmar Mendes

 


247 - O original da lista do valerioduto mineiro (ou tucano, se preferir) chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Quem registra a chegada é o repórter Leandro Fortes, da revista Carta Capital. Em um texto intitulado O argumento da fraude caiu, o jornalista conta que o advogado Dino Miraglia Filho foi ao STF na quinta-feira passada (dia 2) para entregar o documento ao ministro Joaquim Barbosa. "Miraglia havia embarcado de Belo Horizonte no dia anterior para entregar ao ministro Joaquim Barbosa o original da lista do valerioduto mineiro, ou melhor, tucano, um documento de 27 páginas com o registro contábil, registrado em cartório, de 104,3 milhões de reais movimentados por meio de caixa 2", escreveu Leandro Fortes. Essa seria a quantia, segundo o documento, gasta na fracassada campanha à reeleição do ex-governador e atual deputado Eduardo Azeredo, do PSDB, em 1998.

O repórter, autor da matéria que apontou o ministro Gilmar Mendes como beneficiário de R$ 185 mil, também reforçou a autenticidade do documento. "Logo após a divulgação da lista, Marcos Valério, por meio de seu advogado, apressou-se em afirmar a falsidade do documento. No mesmo caminho seguiram Azeredo e Mendes, que teria recebido 185 mil reais. A negativa do publicitário era mais do que esperada. Réu do processo do mensalão, ele não pode assumir a responsabilidade pela administração de outro esquema criminoso. O caso de Minas Gerais também está no STF, mas somente para os envolvidos com direito a foro privilegiado, Azeredo e o senador Clésio Andrade (PMDB-MG)", argumenta, acrescentando que a lista não foi publicada junto com a reportagem por um erro de edição. 

A reportagem e sua repercussão na internet levaram Mendes a pedir à Polícia Federal que abrisse investigação contra a Wikipédia, enciclopédia virtual, feita de forma colaborativa, que mantém um verbete a seu respeito e, nele, menciona a matéria.

COMENTÁRIOS:

Chega de mentiras!  --  A "Carta Capital" sempre foi um folheto de quinta categoria. Cada vz mais mostra sua cara e a que veio. Por isso, não se sustenta como um semanário confiável, para a grande maioria dos brasileiros com um mínimo de discernimento! Melhor fechar o boteco, né? Quem discorda, diga-me o número de tiragem-vendagem em relação aos outros semanários! O real, hein? Daí, ponto!
Luciano  --  Ele vai já correr pra debaixo das asas do Reinaldo Cabeção. E daí, o Cabeção escreve naquele blog... daquela revista do crime organizado, que é tudo armação pra desviar a atenção do mensalão (só o do PT).
Carlos Augusto  --  A grande diferença entre a CC e Veja é que a CC publica matérias com farto material comprobatório... e Veja com base em fofocas. Entre as duas, prefiro a CC.
Chega de verdades  --  Se a qualidade das coisas é representada pela quantidade que vende então, poderíamos afirmar que uma caneta Bic é melhor que uma Mont Blanc ou que um Cd de Axê music é melhor que a música clássica.
luciano  --  Lendo esta matéria fico impressionado como só agora, durante o inquérito 470 em julgamento no STF aparecem listas e mais listas,papelotes e tudo mais,visando o que?Atingir um magistrado?A própria matéria informa que o autor da garimpagem contábil já disse alto e bom som que a assinatura não é dele.
Marieta Bocamarte  --  Para o luciano (7.08.2012 às 22:49). Aé? Não acredita em nada? Só no cachorrão do Gilmar? Então chama o piriquitex do João Dória e se filia no CANSEI. E aproveita e faz filiação também na OPUS DEY. Assim, você pode dizer: "tô com tudo"!
Marcelo --  Esta revista sempre foi tendenciosa. Sempre serviu aos interesses do Pt, mst e etc. Tem que ser "muito inocente" para acreditar nela. Pode ser que ele até tenha culpa, mas carta capital não tem moral, ética ou credibilidade para acusar ninguém.
Marieta Bocamarte -  E daí que o Dr. Gilmar Mendes pegou 185.000 "pratas"? Ele vai justificar que foi um empréstimo pra tirar a "vaca do brejo" do nosso amigo deste pedaço. É uma merreca, gente! E o nosso grande FHC que levou uma bolada de U$ 1 milhão do Congresso norte-americano. Ganha um docinho que descobrir qual foi (na realidade) a causa deste premiozinho! Será que é recompensa ou serviço a ser entregue? Quem diria, hein? US 1 MILHÃO! O FHC está GAGÁ, mas não rasga dinheiro nem come bosta!
http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/74071/Carta-reafirma-e-refor%C3%A7a-ataque-a-Gilmar-Mendes-Carta-reafirma-refor%C3%A7a-ataque-Gilmar-Mendes.htm


Houve crime. E ninguém foi punido

07 de Agosto de 2012
Houve crime. E ninguém foi punido
Ricardo Cascais, especial para o 247 – “Houve crime”. A frase foi dita ontem pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que formou seu juízo após ouvir a exposição de Roberto Gurgel, na última sexta-feira. FHC nem se dispôs a ouvir o contraditório, que seria a defesa dos réus.
Ocorre que, quinze anos atrás, houve uma venda de votos comprovada no Congresso Nacional, protagonizada pelo ex-deputado Ronivon Santiago, que perdeu seu mandato.
Sim, houve crime, mas ninguém foi punido.
Leia, abaixo, a reportagem que originou o escândalo:
Deputado diz que vendeu
seu voto a favor da reeleição
por R$ 200 mil
[Reportagem publicada em 13 de maio de 1997]

FERNANDO RODRIGUES
da Sucursal de Brasília

O deputado Ronivon Santiago (PFL-AC) vendeu o seu voto a favor da emenda da reeleição por R$ 200 mil, segundo relatou a um amigo. A conversa foi gravada e a Folha teve acesso à fita.

Ronivon afirma que recebeu R$ 100 mil em dinheiro. O restante, outros R$ 100 mil, seriam pagos por uma empreiteira _a CM, que tinha pagamentos para receber do governo do Acre.

Os compradores do voto de Ronivon, segundo ele próprio, foram dois governadores: Orleir Cameli (sem partido), do Acre, e Amazonino Mendes (PFL), do Amazonas.

Todas essas informações constam de gravações de conversas entre o deputado Ronivon Santiago e uma pessoa que mantém contatos regulares com ele. As fitas originais estão em poder da Folha.

O interlocutor do deputado não quer que o seu nome seja revelado.

Essas conversas gravadas com Ronivon aconteceram ao longo dos últimos meses, em diversas oportunidades.

Outros venderam
Nas gravações a que a Folha teve acesso, o deputado acreano diz não ser o único parlamentar que se vendeu na votação da reeleição, no último dia 28 de janeiro, quando a emenda foi aprovada, em primeiro turno, com 336 votos favoráveis na Câmara.

"O Amazonino marcou dinheiro para dar (R$) 200 (mil) para mim, 200 pro João Maia, 200 pra Zila e 200 pro Osmir", diz Ronivon na gravação.

Os personagens citados são os deputados federais João Maia, Zila Bezerra e Osmir Lima, todos do Acre e filiados ao PFL. Outro parlamentar também recebeu dinheiro para votar a favor da reeleição, conforme explicação de Ronivon.

Eis como Ronivon menciona esse fato em suas conversas: "Ele (Amazonino) foi e passou (o dinheiro) pro Orleir (...) Mas no dia anterior ele (Orleir) parece que precisou dar 100, parece que foi pro Chicão, e só deu 100 pra mim."

Na gravação, Ronivon fazia referência a deputados do Acre. O único deputado do Acre conhecido como Chicão é Chicão Brígido (PMDB), que, sempre segundo as conversas de Ronivon, entrou no negócio na última hora. Por isso, Orleir Cameli precisou de mais dinheiro e teve de dividir uma das cotas de R$ 200 mil.

Há mais de uma versão sobre quanto cada deputado recebeu de fato para votar a favor da reeleição. Ronivon diz ser o único a ter embolsado R$ 100 mil. Todos os outros, diz ele, levaram R$ 200 mil à vista, em dinheiro.

Em alguns momentos, entretanto, o deputado sugere que Chicão Brígido e João Maia também receberam apenas R$ 100 mil.

Dos 8 parlamentares acreanos na Câmara, 6 votaram a favor da emenda da reeleição e 2 contra.

Venda corriqueira
Ronivon tem comentado a sua venda de voto a favor da reeleição como se fosse algo corriqueiro. Fala com vários colegas deputados. Algumas dessas conversas casuais é que foram gravadas.

Nessas gravações, o deputado revela detalhes de toda a operação.

Primeiro, Ronivon diz que foi contatado pelo governador do Acre, Orleir Cameli. Em troca do voto a favor da emenda da reeleição, cada deputado recebeu R$ 200 mil. O pagamento foi por meio de um cheque pré-datado _deveria ser depositado só depois de a votação ter sido concluída favoravelmente ao governo.

As fitas apontam que, nos dias que antecederam a votação, cheques nesse valor foram entregues para, pelo menos, quatro deputados acreanos: Ronivon Santiago, João Maia, Osmir Lima e Zila Bezerra.

Na gravação, Ronivon afirma que os cheques eram do Banco do Amazonas, em nome de uma empresa de Eládio Cameli, irmão de Orleir Cameli.

Apesar de tudo acertado, a operação acabou não agradando aos deputados nem ao governador acreano. O arrependimento se deu na véspera da votação da reeleição. Era uma segunda-feira, dia 27 de janeiro passado.

"Você é infantil"
De acordo com Ronivon, em conversas posteriores à venda de seus votos, os parlamentares começaram a avaliar que poderiam ser logrados depois da votação. Nada impediria, pensaram, que os cheques fossem sustados.

Já aos ouvidos de Orleir Cameli chegou um alerta importante do seu colega do Amazonas, o governador Amazonino Mendes.

Segundo Ronivon relata a seu amigo, Amazonino foi precavido e disse o seguinte a Cameli: "Você é tão infantil, rapaz. Vai dar esse cheque para esse pessoal? Pega um dinheiro e leva".

Depois dessa sugestão de Amazonino Mendes, conta Ronivon Santiago, o governador do Acre "pegou todo mundo e deu a todo mundo em dinheiro".

O dinheiro, emprestado a Orleir por Amazonino Mendes, só foi entregue aos parlamentares na manhã do dia da votação do primeiro turno da emenda da reeleição, 28 de janeiro, uma terça-feira, conforme a gravação.

A entrega dos R$ 200 mil, em dinheiro, para cada deputado, foi feita mediante a devolução dos cheques pré-datados _que foram rasgados na frente de Orleir, segundo relato de Ronivon.

A troca dos cheques por dinheiro ocorreu em um local combinado em Brasília. Cada deputado se apresentou, rasgou seu cheque na hora e recebeu o pagamento em dinheiro dentro de uma sacola.

"Aí chegou o Osmir, estava lá com a sacola assim... (risos). João Maia com a outra", relata Ronivon, de bom humor, a cena da manhã que antecedeu a votação.

"Sou leso?"
Endividado, Ronivon diz que usou o produto da venda de seu voto para diminuir débitos bancários. O deputado disse que saldou uma dívida de "196 pau" (R$ 196 mil) que tinha contraído em bancos. Nas suas conversas, o deputado cita quatro bancos onde contraiu dívidas: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco de Brasília e Banacre (do governo do Acre).

Ronivon diz que aproveitou também o dinheiro obtido com a venda de seu voto a favor da reeleição para resgatar cheques sem fundos que havia emitido.

Cauteloso, não quis fazer os pagamentos logo depois da votação da reeleição. "Sou leso?", pergunta aos risos para seu interlocutor em uma das gravações.

"Leso", segundo o "Novo Dicionário Aurélio", significa "idiota" e "amalucado". A pronúncia correta pede que a primeira sílaba seja tônica: "lé-so".

Para evitar que fosse rastreado o dinheiro, Ronivon explica que saldou totalmente suas dívidas apenas no início de março quando dá a entender que já teria recebido todo o pagamento pelo seu voto.


07 de Agosto de 2012 às 13:57
Ricardo Cascais, especial para o 247 – “Houve crime”. A frase foi dita ontem pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que formou seu juízo após ouvir a exposição de Roberto Gurgel, na última sexta-feira. FHC nem se dispôs a ouvir o contraditório, que seria a defesa dos réus.
Ocorre que, quinze anos atrás, houve uma venda de votos comprovada no Congresso Nacional, protagonizada pelo ex-deputado Ronivon Santiago, que perdeu seu mandato.
Sim, houve crime, mas ninguém foi punido.
Leia, abaixo, a reportagem que originou o escândalo:
Deputado diz que vendeu
seu voto a favor da reeleição
por R$ 200 mil
[Reportagem publicada em 13 de maio de 1997]

FERNANDO RODRIGUES
da Sucursal de Brasília

O deputado Ronivon Santiago (PFL-AC) vendeu o seu voto a favor da emenda da reeleição por R$ 200 mil, segundo relatou a um amigo. A conversa foi gravada e a Folha teve acesso à fita.

Ronivon afirma que recebeu R$ 100 mil em dinheiro. O restante, outros R$ 100 mil, seriam pagos por uma empreiteira _a CM, que tinha pagamentos para receber do governo do Acre.

Os compradores do voto de Ronivon, segundo ele próprio, foram dois governadores: Orleir Cameli (sem partido), do Acre, e Amazonino Mendes (PFL), do Amazonas.

Todas essas informações constam de gravações de conversas entre o deputado Ronivon Santiago e uma pessoa que mantém contatos regulares com ele. As fitas originais estão em poder da Folha.

O interlocutor do deputado não quer que o seu nome seja revelado.

Essas conversas gravadas com Ronivon aconteceram ao longo dos últimos meses, em diversas oportunidades.

Outros venderam
Nas gravações a que a Folha teve acesso, o deputado acreano diz não ser o único parlamentar que se vendeu na votação da reeleição, no último dia 28 de janeiro, quando a emenda foi aprovada, em primeiro turno, com 336 votos favoráveis na Câmara.

"O Amazonino marcou dinheiro para dar (R$) 200 (mil) para mim, 200 pro João Maia, 200 pra Zila e 200 pro Osmir", diz Ronivon na gravação.

Os personagens citados são os deputados federais João Maia, Zila Bezerra e Osmir Lima, todos do Acre e filiados ao PFL. Outro parlamentar também recebeu dinheiro para votar a favor da reeleição, conforme explicação de Ronivon.

Eis como Ronivon menciona esse fato em suas conversas: "Ele (Amazonino) foi e passou (o dinheiro) pro Orleir (...) Mas no dia anterior ele (Orleir) parece que precisou dar 100, parece que foi pro Chicão, e só deu 100 pra mim."

Na gravação, Ronivon fazia referência a deputados do Acre. O único deputado do Acre conhecido como Chicão é Chicão Brígido (PMDB), que, sempre segundo as conversas de Ronivon, entrou no negócio na última hora. Por isso, Orleir Cameli precisou de mais dinheiro e teve de dividir uma das cotas de R$ 200 mil.

Há mais de uma versão sobre quanto cada deputado recebeu de fato para votar a favor da reeleição. Ronivon diz ser o único a ter embolsado R$ 100 mil. Todos os outros, diz ele, levaram R$ 200 mil à vista, em dinheiro.

Em alguns momentos, entretanto, o deputado sugere que Chicão Brígido e João Maia também receberam apenas R$ 100 mil.

Dos 8 parlamentares acreanos na Câmara, 6 votaram a favor da emenda da reeleição e 2 contra.

Venda corriqueira
Ronivon tem comentado a sua venda de voto a favor da reeleição como se fosse algo corriqueiro. Fala com vários colegas deputados. Algumas dessas conversas casuais é que foram gravadas.

Nessas gravações, o deputado revela detalhes de toda a operação.

Primeiro, Ronivon diz que foi contatado pelo governador do Acre, Orleir Cameli. Em troca do voto a favor da emenda da reeleição, cada deputado recebeu R$ 200 mil. O pagamento foi por meio de um cheque pré-datado _deveria ser depositado só depois de a votação ter sido concluída favoravelmente ao governo.

As fitas apontam que, nos dias que antecederam a votação, cheques nesse valor foram entregues para, pelo menos, quatro deputados acreanos: Ronivon Santiago, João Maia, Osmir Lima e Zila Bezerra.

Na gravação, Ronivon afirma que os cheques eram do Banco do Amazonas, em nome de uma empresa de Eládio Cameli, irmão de Orleir Cameli.

Apesar de tudo acertado, a operação acabou não agradando aos deputados nem ao governador acreano. O arrependimento se deu na véspera da votação da reeleição. Era uma segunda-feira, dia 27 de janeiro passado.

"Você é infantil"
De acordo com Ronivon, em conversas posteriores à venda de seus votos, os parlamentares começaram a avaliar que poderiam ser logrados depois da votação. Nada impediria, pensaram, que os cheques fossem sustados.

Já aos ouvidos de Orleir Cameli chegou um alerta importante do seu colega do Amazonas, o governador Amazonino Mendes.

Segundo Ronivon relata a seu amigo, Amazonino foi precavido e disse o seguinte a Cameli: "Você é tão infantil, rapaz. Vai dar esse cheque para esse pessoal? Pega um dinheiro e leva".

Depois dessa sugestão de Amazonino Mendes, conta Ronivon Santiago, o governador do Acre "pegou todo mundo e deu a todo mundo em dinheiro".

O dinheiro, emprestado a Orleir por Amazonino Mendes, só foi entregue aos parlamentares na manhã do dia da votação do primeiro turno da emenda da reeleição, 28 de janeiro, uma terça-feira, conforme a gravação.

A entrega dos R$ 200 mil, em dinheiro, para cada deputado, foi feita mediante a devolução dos cheques pré-datados _que foram rasgados na frente de Orleir, segundo relato de Ronivon.

A troca dos cheques por dinheiro ocorreu em um local combinado em Brasília. Cada deputado se apresentou, rasgou seu cheque na hora e recebeu o pagamento em dinheiro dentro de uma sacola.

"Aí chegou o Osmir, estava lá com a sacola assim... (risos). João Maia com a outra", relata Ronivon, de bom humor, a cena da manhã que antecedeu a votação.

"Sou leso?"
Endividado, Ronivon diz que usou o produto da venda de seu voto para diminuir débitos bancários. O deputado disse que saldou uma dívida de "196 pau" (R$ 196 mil) que tinha contraído em bancos. Nas suas conversas, o deputado cita quatro bancos onde contraiu dívidas: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco de Brasília e Banacre (do governo do Acre).

Ronivon diz que aproveitou também o dinheiro obtido com a venda de seu voto a favor da reeleição para resgatar cheques sem fundos que havia emitido.

Cauteloso, não quis fazer os pagamentos logo depois da votação da reeleição. "Sou leso?", pergunta aos risos para seu interlocutor em uma das gravações.

"Leso", segundo o "Novo Dicionário Aurélio", significa "idiota" e "amalucado". A pronúncia correta pede que a primeira sílaba seja tônica: "lé-so".

Para evitar que fosse rastreado o dinheiro, Ronivon explica que saldou totalmente suas dívidas apenas no início de março quando dá a entender que já teria recebido todo o pagamento pelo seu voto.


http://www.brasil247.com/pt/247/poder/73857/Houve-crime-E-ningu%C3%A9m-foi-punido.htm